O fenômeno climático deve aumentar a pressão sobre pastagens, disponibilidade de alimentos e conforto dos animais. Para a pecuária de leite e de corte, a capacidade de responder rapidamente pode ser tão importante quanto a intensidade do próprio El Niño.
Existe uma diferença entre enfrentar um período de clima adverso e estar preparado para ele. No primeiro caso, a fazenda reage quando a pastagem perde qualidade ou os estoques de alimentos se aproximam do limite. No segundo, parte das decisões já foi tomada antecipadamente.
Essa preparação ganha importância diante do El Niño previsto para 2026/27. Em setembro, o INMET passou a concentrar atualizações sobre o fenômeno em seu painel específico, enquanto o Ministério da Agricultura e Pecuária estruturou ações de prevenção, mitigação e gestão de riscos.
Os impactos variam conforme a região: o Sul pode enfrentar excesso de chuva, enquanto áreas do Centro-Sul, Norte e Nordeste podem registrar temperaturas elevadas e maior risco de déficit hídrico. Para a pecuária, o desafio é manter a oferta de alimento e o conforto dos animais.
Mais do que perguntar o que o El Niño fará com a pecuária, vale questionar: quanto uma fazenda consegue absorver as variações climáticas sem perder desempenho? Uma resposta que começa no pasto, mas vai além dele.
O clima chega ao cocho antes de aparecer no resultado
Uma alteração na distribuição das chuvas pode mudar a quantidade e a qualidade da forragem disponível. Uma sequência de dias quentes pode modificar o comportamento dos animais. Uma redução no consumo pode comprometer a produção. E, quando a oferta de alimento precisa ser ajustada, aumentam as exigências sobre planejamento, armazenamento e preparo das dietas. Na pecuária leiteira, essa relação é especialmente evidente.
O estresse térmico reduz o consumo de matéria seca e pode comprometer a produção de leite. Uma meta-análise publicada no Journal of Dairy Science, com 31 estudos e 34 experimentos, encontrou associação entre o aumento do índice de temperatura e umidade e a redução tanto do consumo de matéria seca quanto da produção de leite. Em vacas no meio da lactação, cada unidade adicional de THI esteve associada, no estudo, a uma redução de 4,13% no consumo de matéria seca e de 3,25% na produção de leite.
Uma pesquisa publicada em 2026, que analisou 35 estudos, associou o aumento do estresse térmico à queda na produção de leite e a alterações nos teores de gordura, proteína e lactose. O desafio vai além da temperatura: envolve a energia disponível para produzir. Com menor consumo e maior demanda para dissipar calor, a consistência do manejo nutricional torna-se ainda mais importante.
Na pecuária de corte, o estresse térmico também compromete o desempenho. Uma meta-análise de 31 publicações, com 6.729 bovinos, mostrou que animais com acesso à sombra apresentaram maior ganho médio diário e melhor eficiência de conversão do que aqueles expostos ao sol.
O ponto comum entre leite e corte é que o ambiente interfere no desempenho, mas o manejo determina quanto desse impacto chegará ao resultado da fazenda. É aí que a discussão sobre clima deixa de ser exclusivamente meteorológica.
A eficiência ganha outro significado quando o ambiente fica mais incerto
Em condições normais, falar em eficiência costuma significar produzir mais utilizando menos recursos. Em um cenário de maior variabilidade climática, existe uma segunda dimensão: a capacidade de manter o desempenho mesmo quando as condições deixam de ser ideais. Isso muda a forma de olhar para a alimentação.
Se a qualidade do volumoso varia, a operação precisa ter capacidade de trabalhar com diferentes características de matéria-prima. Se a participação de concentrados aumenta, a precisão no preparo da dieta se torna ainda mais importante. Se o rebanho está submetido a maior pressão térmica, desperdícios e inconsistências na alimentação podem se tornar mais caros. A eficiência, portanto, não está apenas na formulação. Está também na execução.
Uma dieta tecnicamente excelente perde potencial quando a mistura é inconsistente, o equipamento não comporta o volume de ingredientes ou o preparo compromete a rotina. O equipamento não resolve o estresse térmico, mas ajuda a aumentar o controle sobre os processos da fazenda quando não é possível controlar o clima. Essa lógica também orienta as ações do setor público. Em setembro, o MAPA recebeu da Embrapa 163 medidas para a gestão de riscos climáticos, combinando respostas ao El Niño 2026/27 e estratégias permanentes de prevenção e adaptação.
Na sequência, o Ministério lançou uma página com informações sobre clima, crédito, seguro rural, Zarc, assistência técnica e gestão de riscos. A mensagem é clara: preparar-se é construir uma operação mais capaz de responder às adversidades.
É nesse espaço que a tecnologia passa a ter outro papel
Na alimentação do rebanho, a tecnologia contribui não apenas para aumentar a produção, mas também para dar regularidade à operação. Os misturadores de ração total combinam volumosos, concentrados, minerais e outros ingredientes conforme as necessidades do sistema.
A escolha do equipamento deve partir da realidade da fazenda: tamanho do rebanho, ingredientes utilizados, frequência de trato, logística e volume produzido. A Casale oferece diferentes configurações de misturadores horizontais e verticais, atendendo a distintas escalas e sistemas produtivos, do leite ao confinamento.
Assim, a tecnologia transforma o planejamento nutricional em uma rotina mais adequada às necessidades de cada propriedade.
O próximo desafio climático pode ser uma oportunidade para olhar para dentro da fazenda
Não há como determinar exatamente como cada propriedade será afetada pelo El Niño. A intensidade do fenômeno não será traduzida de maneira uniforme em todo o território, e as condições locais continuarão sendo determinantes.
Mas existe uma conclusão que independe da previsão para uma determinada região. Quanto maior a variabilidade do ambiente, maior o valor de uma operação capaz de responder rapidamente.
Para quem produz leite, isso passa por conforto térmico, consumo, qualidade do alimento e regularidade da dieta. Para quem produz carne, passa por disponibilidade de forragem, desempenho, suplementação, conversão alimentar e capacidade de adaptação do sistema. E, para ambos, passa por uma pergunta que vale muito além do El Niño:
E quanto da eficiência da sua fazenda depende de fatores que você consegue controlar?
O clima continuará mudando, os preços oscilando e os custos pressionando as margens. Mas é possível aprimorar processos, reduzir desperdícios e tornar a alimentação mais precisa. Nesse cenário, a tecnologia ajuda a transformar decisões em uma rotina mais eficiente. O El Niño 2026/27 reforça uma realidade da pecuária: diante da variabilidade climática, eficiência também é capacidade de resistência.
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